Segunda-feira, Agosto 21, 2006

The (Top) End





















Desta vez cheguei a Darwin ao pôr-do-sol. Por um lado é bom chegar a esta hora a uma cidade onde se espera descansar, relaxa-se logo. Por outro, para quem andou atravessando vários “meios-do-nada”, o bulício de uma cidade jovem pode ser revigorante. Como a virtude costuma estar no meio, escolhi doses moderadas de descanso e movimento.
Das duas outras vezes que aqui tinha estado não tive tempo de conhecer muito da capital do Território do Norte, ao que eles chamam carinhosamente o “Top End” (na realidade, esta é a primeira vez que venho a Darwin sem ir para Timor), assim comecei por ficar no Top End Hotel onde “aterrei” da primeira vez, e no seu restaurante-jardim tropical onde esperava comer cangurú e crocodilo. Sete anos depois a ementa tinha umas coisas semi-asiáticas e uns bifes bezuntados de molho. E o hotel está igualzinho, com portas velhas e frágeis e quartos com o mesmo perfume anos 70. O pequeno-almoço foi uma desilusão porque a variedade de frutas tropicais desapareceu da mesa por completo com os anos. Enfim, há alguns lugares em que é difícil ser-se feliz duas vezes.
Uma caminhada para o estômago se esquecer do bife, e lá fui eu inspeccionar a Mitchell Street, que também é a rua onde fica o hotel. Aqui sim, há mudanças: agora a “movida” de Darwin parece ter-se movido para os numerosos bares e restaurantes que atraem tanto turistas como os locais, os “territorians”. O “deitar cedo” depois de conduzir, e o “cedo erguer” dos dias passados agarrara-se ao organismo, por isso a noite de sábado acabou comigo esticado na cama “king-size”. Dormi como um rei.

A ressaca de cidade teve o seu reflexo no consumismo de domingo, que aproveitei para dedicar à compra dos “recuerdos” da praxe e para me aperaltar em traje domingueiro tropical com vista a ir ao Mercado da Praia de Mindill. Finalmente pude comer bem! A quantidade de tasquinhas japonesas, indonésias, gregas, italianas e até timorenses (pena não haver portuguesas, mas o bacalhau nos mares da Noruega não perde pela demora e já deve estar a tremer, não de frio, mas só de pensar que vou regressar e por isso os pescadores vão ter de exceder as quotas) dizia eu, a quantidade deve ser proporcional à gula que toda a gente para ali leva. E não basta a fome do corpo ainda se sacia a fome de espírito com músicos de rua, teatro de marionetas e números circences. Um belo final de domingo com direito a mais um pôr-do-sol.

Ainda lembrado do livro “Na terra dos cangurús” de Bill Bryson, achei por bem dedicar a manhã do último dia na “terra dos cangurús atropelados” para a cultura e a ciência e fui ao Museu e Galeria de Arte do Território do Norte, onde depois de um chá gelado caseiro, com vista para o mar, me adentrei por entre quadros, utensílios, mapas, e tudo o que se pode imaginar sobre etnologia e arte ligadas aos donos de Darwin, que são os aborígenes, pois seguindo a lei de que já vos falei atrás, novamente se mexeram e reclamaram as terras de Darwin e sua península. Estão à espera da decisão final.
Mas eu vim a este museu por dois motivos em especial: as terríveis alforrecas e o Ciclone Tracy. E ainda tive um bónus que desconhecia e que é o “Sweethart” um crocodilo embalsamado, com uns cinco metros que parece ainda ter fome, mesmo empalhado. Para além dos incontáveis insectos, aranhas, répteis, peixes, ossos de animais pré-históricos, e devidas explicações, ali estavam elas, as alforrecas a que eles chamam “box jellyfish”, dentro de umas vitrines, cautelosamente mortas, e provavelmente no Inferno pois têm a fama de animal mais venenoso do mundo. Por estas e pelos “crocs”, é que o pessoal do norte da Austrália não vai muito a banhos de mar…
A última secção do museu é dedicada ao ciclone que destruíu Darwin pela segunda vez, e que conseguiu causar muito mais danos do que os esquadrões de bombardeiros japoneses na II Guerra Mundial. As fotos da exposição e os filmes projectados têm demasiadas semelhanças com as que todos vimos do furacão Katherine. O Tracy varreu Darwin do mapa na noite de Natal de 1974 e, como bem diz Bill Bryson no seu livro, o pequeno cubículo escuro é a parte mais intensa da exposição. Antes de abrir a porta reparei no pequeno aviso colocado à entrada e que avisa os visitantes de que aquela sala pode causar angústia, em especial a quem viveu essa noite de pavôr. Digo-vos eu que estava bem longe nesse Natal, que os sons gravados por um padre nessa noite são mesmo angustiantes. O silvo contínuo do vento, como se fosse um motor gigantesco que parece estar perto mas não se aproxima, telhados e janelas a bater, o estilhaçar de vidros, coisas pesadas a caírem. O som parece mais terrível do que as imagens e não admira que os dois miúdos que entraram comigo não se tenham demorado muito na sala não fosse aquele ser o barulho do Papão.

O que faltava do dia passei-o a “flanar” pelo porto e pela zona do parlamento onde conheci o Timothy e a Doreen nos jardins, dois “homeless” que estão juntos há dezoito meses (parece que nesta viagem os “homeless” simpatizaram comigo, e uso a expressão em inglês porque o mato lhes dá o abrigo, tal como ao Abdul). Como me explicou o barbudo desdentado, a sua mulher aborígene também tem sangue árabe pois é descendente de afegãos que vieram no século XVIII para a Austrália como tratadores dos dromedários usados nas caravanas que faziam o comércio igualmente por estes desertos.

Esta mistura de povos, da qual até os portugueses fazem parte, torna a Austrália um país ainda mais rico, com tradições que se cruzam e, embora só recentemente os Aborígenes comecem a ter os seus direitos reconhecidos, a tolerância parece ser palavra de ordem. E a boa vontade. Como diz o Tom Zé, “sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser vai dar para mudar o final”.

Acabo esta parte da minha viagem de sonho pela Austrália com o objectivo principal cumprido, e que agora revelo: viajar dentro de mim. O único formigueiro agora, não está em nenhuma foto, sinto-o à medida que o regresso se aproxima e as saudades que tenho de vocês já não se apaziguam com a escrita.

Até já.

Aqui fica também o filme final da viagem.


Domingo, Agosto 20, 2006

O bom humor também é sagrado





















Os guias australianos devem ter uma cadeira de humor nos cursos. Repetidas vezes lançaram aquela boca que fica no ar, inesperada, e que lança toda a gente numa gargalhada cavalgante. No desfiladeiro de Katherine o guia/barqueiro debitava o discurso sobre as várias secções do desfiladeiro, os animais, as pinturas aborígenes, e no meio ia pontilhando (isto já sou eu condicionado pelas pinturas pontilhadas dos aborígenes) com piadas. Estudadas. Daquelas que deve guardar em cartuchos para a altura certa.
No pequeno cartaz enterrado na duna na margem do rio Katherine dizia: “No enter” e o “Cenoura” (acho que era Rudolph o nome dele, mas como não me lembro bem…) perguntava aos participantes se sabiam para que era aquele sinal. “É por causa dos crocodilos. No Território do Norte temos crocodilos extremamente inteligentes, e que até sabem lêr! Se acreditarem nisto acreditam em tudo… Just kiddin’ e depois lá explicava que era a época dos “crocs” porem ovos, e que o calor das dunas os chocava. Mais à frente nova questão: “sabem porque é que aquele colete de salvação está ali?” mais ou menos a cinco metros acima da água, pendurado na falésia lá estava ele “um dia tive um cliente muito chato… Just kiddin” as últimas cheias foram tão intensas e o nível do rio subiu tanto que o colete se soltou do armazém e ficou ali, até hoje.

No Parque Nacional Kakadu (mais um Património da Humanidade) o guia do cruzeiro também as tinha todas engatilhadas. O cruzeiro do Yellow River é, talvez, a maior atracção do Parque pois navega-se por entre crododilos e inúmeras espécies de aves que para aqui vêm na época seca. São aos milhões os gansos, os quais chegam a representar em dada altura do ano, 60% da população mundial. É muito ganso.
Por todo o Território do Norte não é muito seguro dar-se umas braçadas fora de uma piscina porque por aqui habita o crocodilo de água salgada, que não é muito dado a brincadeiras. E quando anda na brincadeira é menino para arrancar uma pata a um seu congénere. “Por isso é que o Tripé tem o nome que tem” dizia o guia enquanto manobrava a balsa.

O Kakadu é um lugar mágico. Para além de todo o valor natural que tem, sendo uma grande zona onde as águas dos dilúvios que por aqui caem servem de abrigo e de fonte de alimento a milhentas espécies de asas, de patas, de dentes, de focinhos, de pêlos e de folhas, o Kakadu é também um lugar simbólico ao longo dos tempos, desde o “Tempo dos Sonhos” para os Aborígenes. Existem por todo o parque lugares sagrados para eles, onde nós, comuns caucasóides, não podemos entrar. Mas em alguns podemos, como na Rocha de Nourlangie, e na de Ubirr. Este último lugar foi o que mais mexeu comigo ao subir o enorme penedo que serve de miradouro sobre as planícies alagadas. À medida que subia parecia que caminhava para a proa de um navio até que era só eu e o verde até ao fim do horizonte, e atrás, as colunas de fumo das queimadas contribuíam para a minha pequenez. “O mundo é grandioso” devo ter pensado.

O Aborípcio



Quando parei para lhe dar boleia pareceu-me um aborígene. Ia finalmente poder contactar de perto com este povo, que até constitui uma das quatro raças da Humanidade. Até agora só vira provas do seu genialismo na pintura e outras artes e em tudo o que é “souvenir” da Austrália. E também os vira nas ruas das terras mais a norte, onde caminham perdidos, alienados, quase sempre alcoolizados. Para estar de perto com eles é preciso ir às fechadas comunidades onde vivem, onde é necessário obter autorização, quase um visto para entrar nos vários países dentro deste país.
Desde os anos setenta, quando saíu uma lei que permite a cada uma das várias tribos aborígenes reclamar a terra dos seus ancestrais, provando uma associação contínua como povo, com as suas tradições ligadas sempre à terra (e mesmo à Terra), na língua, etc, que já são vários os pedaços de terra “independentes”. O maior de todos, a Arnhemland, no Território do Norte.

Mas Abdul não é nome de aborígene. A personagem a quem acabara de dar boleia é egípcio. Na história que me contou durante os quatrocentos e tal quilómetros de boleia até Katherine, existe um rapaz de vinte e cinco anos, nascido em Luxor, e que se apaixonou por uma miúda australiana. Convidou-a para viver com ele no Egipto. Tentaram mas ela não se adaptou. E depois ela mandou-lhe um bilhete de avião para a Austrália e ele foi. Há catorze anos.
O juízo que ele faz das mulheres não é dos melhores: “O livro de Alá diz que a mulher deve sempre seguir o homem”. “As mulheres têm um cérebro assim”-acrescenta deixando um minúsculo espaço entre o polegar e o indicador.
Diz que já teve muitas mulheres – e novamente baseia-se no Corão para justificar que pode ter quatro, mas que é a sua fraqueza, o seu maior pecado – e que as brancas australianas são umas parvalhonas. Só pensam em ter carros e casas. Ele que nem tem casa! Isto é, a sua casa é o mato, com telhado de estrelas. Dorme no mato e não tem medo de cobras, lagartos, aranhas, insectos. Nunca lhe fizeram mal e já deu duas voltas à Austrália, por isso…
De vez em quando também gosta de dormir numa cama a sério. Numa cidade. Diz que tem uma namorada aborígene em Melbourne e que ela é extraordinária na cama, “como quase todas as pretas”, como lhes chama. De vez em quando vai para casa dela mas mais de um mês começa-lhe a fazer confusão. A preta e as cidades. Por isso mal pode pira-se. Brinquei com ele, e o iPod tocou “Black Magic Woman” dos Fleetwood Mac. Ele riu-se muito, um riso envergonhado mas quase até às lágrimas.
É um nómada, quando começa a fazer frio no sul começa a mover-se para norte: antes de começar a época de chuvas no Norte aponta para o calor do sul. Diz que só ele é que percebe os aborígenes. Que vive com eles como se fosse um. Só tem pena de não saber alimentar-se no mato como eles fazem quando precisam. Por isso, vai comprando as pernas de frango fritas e as coca-colas nos supermercados ou nas “roadhouses”.
Diz muito mal dos brancos australianos. “São a pior espécie de todas porque vêm dos ingleses. Que morra a Raínha, ela é que tem a culpa!” mas no meio disto diz que recebe um subsídio. Uma espécie de fundo de desemprego de duas em duas semanas, Meto-me com ele: “não gostas do sistema mas vives à custa dele?” Ele finge que não ouve, volta a dizer que só ele é que percebe os “pretos”.
Houve momentos em que adormecia, depois dizia que andar de carro lhe dava sono. Quando teve uma moto conseguiu andar bastante pela Austrália, a sentir o vento na cara. Depois caíu, partiu uma perna, e agora caminha menos e pede boleia. Já chegou a ficar sete dias no mesmo local à espera de quem o levasse.
Quando percebeu como funcionava o iPod, que aquele aparelho acoplado (o iTrip) emitia as músicas para o rádio do carro só foi capaz de dizer a sorrir “ando metido no mato há muito tempo”.
E nisto chegámos a Katherine, pediu para o deixar junto ao rio e como ainda havia sol aproveitava para tomar banho (ah, detestava mulheres que não tomavam banho e não escovavam os dentes!).
Dei-lhe o meu saco-cama, que iria ficar de qualquer da formas na Austrália, e que funcionava assim e assado. Que não queria, era demais para ele, que o desse ao preto que estava lá atrás. “Dá-lho tu” disse-lhe eu. E de novo fez um grande sorriso e deu-me um grande abraço. Pelo retrovisor vi-o caminhar para a margem do rio com o saco-cama, a sua sacola com roupa e o cobertor, e o saco de plástico com comida do supermercado.

O novo filme correspondente aos 6000km também já está disponível aqui. Agradeço ao meu amigo 5tranger o enorme favor que me fez em disponibilizar os outros filmes em formato que os PCs conseguem mostrar. Ainda assim, pelas dicas que ele me deu, continuo sem saber que é este stranger tão benemérito. Se queres continuar incógnito, qual Clark Kent, manda-me um email que não revelo o teu disfarce de super-homem. Aos restantes amigos que não conseguiram ver os filmes, vejam os comentários ao post "Purnululu: Uma das maravilhas do mundo" onde este amigo stranger colocou os links para os filmes em formato Windows.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Purnululu: uma das Maravilhas do Mundo












Já está. Já cometi o meu acto de luxo. Este era um dos pontos mais altos desta viagem, mesmo literalmente. Fiz uma viagem de helicóptero por cima do Parque Nacional Purnululu (ou Bungle Bungle) e confirmaram-se as minhas suspeitas: é um dos locais mais extraordinários do nosso planeta.
Segundo o Michael, piloto do helicóptero que teve um instrutor português, a cordilheira Bungle Bungle não era conhecida dos brancos até meados do séc. XIX, quando um explorador irlandês as descobriu. Como lhe era difícil pronunciar Purnululu, que na língua das tribos de aborígenes da zona quer dizer “pedra de areia”, chamou-lhes Bungle Bungle, uma corruptela do nome de uma erva comum chamada “bundle”. Mesmo assim, só nos anos cinquenta do século passado é que este lugar inimaginável se tornou uma atracção turística, tudo por causa de uma equipa de filmagens alemã que sobrevoava o local e que espalhou a boa nova ao mundo.
Sobrevoar estas formações rochosas que o tempo tem vindo a moldar é uma experiência transcendente. Observar de cima os profundos desfiladeiros, os rios secos que na época “molhada” extravasam os seus leitos e levam tudo à frente, os precipícios abruptos, os montes que se erguem inusitadamente da planície e, acima de tudo, a área que denominam de “colmeias”, o símbolo mais notório do parque.
Só pela paisagem de beleza extrema, não admirava que o Parque fosse considerado Património da Humanidade, mas também o de “nele estarem representados, através de fenómenos naturais da maior importância, fases da História da Terra, com registos da Vida, e processos contínuos no desenvolvimento das formas geológicas do planeta.”

Se o tempo não fosse areia a esgotar-se numa ampulheta, teria ido fazer uma caminhada pelos desfiladeiros onde sobram das chuvas piscinas naturais, e onde crescem palmeiras à sombra das paredes de cem metros; onde há pinturas rupestres feitas pelos aborígenes que habitam esta parte da Austrália há mais de vinte mil anos; onde também se nota melhor o fenómeno das riscas na rocha, causadas por algas e oxidação. Mas para lá ir é preciso fazer uma das piores picadas deste continente-país, e a areia a correr na ampulheta não pára só para eu lá ir. Fica para a próxima. Para já voei, por cima de uma das maravilhas do nosso mundo, e por cima do meu imaginário.

Já agora podem ver o filmito correspondente ao local dos 5000km de viagem. Aqui.

Formigueiros e embondeiros









Os guias dizem que a estrada que liga Broome a Kununurra é chata. Que o caminho giro é a aventureira Gibb River Road, para se fazer de jipe. Pois, não é que me falte vontade, mas o meu Rocinante ficou em casa e por isso faço o percurso chato com a kitchenette ambulante que me tem dado guarida, comida, e só não me dá roupa lavada porque não tem máquina de lavar. Mas em compensação tem casa-de-banho.

Já ontem tinha visto a enorme nuvem de fumo das queimadas, e hoje passei pelo meio de algumas delas que, acho eu, devem ser feitas para precipitar a germinação de sementes já que mais adiante no caminho encontrei campos queimados mas com tufos verdes a despontar.

No meio da savana em que o capim é incendiado, erguem-se milhares de termiteiras e nascem diferentes arbustos e árvores. Com o seu tronco brilhando como se de metal e a forma de garrafa com peruca desgrenhada o boab destaca-se de todas. Sim, escrevi bem. Não é baobab como os de África, mas deve ser da mesma família pela aparência. É um mistério como é que estes embondeiros cá vieram parar mas o certo é que são inúmeros os que se avistam ao longo da estrada. Tal como existe a “Avenida dos Baobab” em Madagáscar, esta estrada australiana devia ser rebaptizada de “Via Rápida dos Boab”. Se não tivesse já pago excesso de bagagem quando vim, era capaz de levar uma para a minha varanda…
Este percurso é uma daquelas provas de que os conceituados guias também têm os seus esquecimentos. Acho que só pelo desfile de formigueiros e boab, vale bem a pena vir por este caminho “chato”.

Por outro lado, começo a chegar à conclusão que foi preciso vir à Austrália para descobrir em mim uma paixão por árvores que não conhecia.

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Um fim de tarde australiano








COMO SÓ AGORA ENCONTREI UM LOCAL COM INTERNET MENOS LENTA, SÓ AGORA DOU MAIS NOTÍCIAS. ABAIXO DESTE POST EXISTEM OUTROS QUATRO NOVOS, INCLUÍNDO OS FILMES DOS ÚLTIMOS 2, 3 e 4 MIL QUILÓMETROS.

À medida que me aproximava de Broome o céu ficava cada vez mais espesso e a luz do sol tornava-se avermelhada. Uma nuvem descomunal cobria o horizonte à minha frente e dei por mim a pensar se seria chuva. Pelo que tenho lido, o norte da Austrália tem na estação “Molhada”, chuvas torrenciais que inundam grande parte da zona de Darwin, Cairns e das Kimberleys, que por acaso é onde estava a chegar. Mas esta não é a estação “Molhada” e sim a “Seca”. Muito práticos estes australianos a chamaram as coisas pelos nomes. Como não há Verão, nem Outono, nem Primavera nem Inverno, e apenas chove muito ou não chove nada, nada melhor do que chamar a estas duas épocas “Wet” e “Dry”.
O sinal de trânsito que mais tenho visto não é sobre animais, ou curvas perigosas, proibições, etc. É um sinal que diz “floodway” e que previne para as torrentes que inundam os campos e as estradas. Estou em crêr que devem haver muitos “Reguengos do Alviela” a ficarem isolados por aqui.
Já em Broome a mesma nuvem pairava sobre esta cidade tão badalada nos roteiros turísticos, não se via quase ninguém e as lojas estavam fechadas. Está bem, é domingo, mas numa terra em que, loja sim, loja também, ou é uma agência de viagens ou um café, é estranho que esteja deserta. Até o cybercafé estava a fechar… às 3 da tarde. No entanto, os hotéis e parques de campismo tinham letreiros à porta a pedir desculpa por não terem vagas…
Os dois casais com quem confraternizei na noite passada à volta de uma garrafa de vinho, e hoje de manhã (sem vinho mas com uma garrafa de azeite australiano que eles me ofereceram), o Malcom e a Denise, o Max e a Julie, dizia eu, tinham-me dito para não perder em Broome a “Cable Beach”. Lembrando-me disso, lá fui eu descobrir onde era tal praia. A nuvem também lá estava, mas não podia carregar chuva com aquela côr. Um tipo que meteu conversa sobre as minhas câmeras é que me disse que havia fogos no mato e que também estavam a fazer queimadas em certos terrenos, daí aquela nuvem, afinal, de fumo.
Quando assomei ao primeiro miradouro sobre a praia percebi logo onde é que andavam a população e os turistas de Broome. Mas não pensem que se acotovelavam. A praia é extensíssima, e ainda por cima, estava maré-baixa, (pelo que li, nesta zona verificam-se as maiores amplitudes de maré do mundo, chegando a ter desníveis de onze metros).
Quase todas as famílias e grupos de amigos da cidade deviam estar aqui a aproveitar o pôr-do-sol. Na parte norte da praia centenas de jipes ocupavam o areal, e os seus passageiros ocupavam agora cadeiras de campanha na areia molhada e bebiam, uns cerveja, outros vinho, e os adolescentes contentavam-se com colas e bebidas semelhantes a salsaparrilha enquanto escutavam nos rádios os AC/DC. Toda a gente olhava para o sol.
Esta praia é famosa por outra coisa que me despertara a curiosidade fotográfica e que aparece em todos os postais e brochuras, mas da qual ainda não havia o mínimo sinal : passeios de camelo à beira-mar. Já tinha eu esquecido o assunto e voltava ao parque de estacionamento quando por fim apareceram duas cáfilas dos ditos animais. Na verdade são dromedários e não camelos, mas é o costume, já em Marrocos lhes chamam camelos.
Os dois grupos de turistas escutaram as indicações dos guias e ouviram-se gritos e risinhos à medida que os bichos se punham de pé com a carga reservada para o fim-de-tarde em cim da bossa.
Espelhados assim na areia molhada e com o sol poente por detrás, dromedários, turistas e guias compuseram, mais uma vez, o postal ilustrado mais famoso de Broome.

Milhares de "kêi"

Aqui ficam os filmes dos pontos que marcaram os dois, três e quatro mil quilómetros de viagem. Já há utilizadores de PC a dizer que conseguiram visualizar o filme dos primeiros mil quilómetros, por isso já não são só os MacManíacos os privilegiados.
Tenham atenção que o filme dos três mil km começa com o som muito alto e o dos quatro mil é um bocado longo, por isso deve demorar mais tempo a carregar.
Bom "home-cinema"!

On the road











Foram dois dias e mil e duzentos “Kêi”. Os guias mencionam sempre e os nativos avisam para que não se conduza de noite, sob pena de se ter um encontro demasiado imediato com um cangurú ou uma vaca. A berma da estrada é a prova disso, e aí jazem centenas de cangurús atropelados pelos únicos que circulam de noite sem medo, os “roadtrain”.
Por causa desta condicionante, estes dois últimos dias foram dias “atrás da roda” e não tiveram grandes pontos de interesse. Aqui e ali os montes da região de Pilbara despontam na interminável planície que é a Austrália Ocidental. Montes improváveis e por certo vetustos, já que parecem restos que a erosão dos milhões de anos da geologia deste continente terá poupado.

Em Port Headland fui-me reabastecer ao supermercado,e apesar de ser uma “cidade importante”, com os seus 15.000 habitantes dependentes da extracção de minério de ferro da mina de Newman, a mais de 400km, tem um ar de aldeia, ou de cidade abandonada. Talvez seja por ser sábado.

Os comboios que carregam o minério são uma atracção turística da cidade. Do alto de um viaduto pode-se julgar o seu comprimento enquanto eles aguardam ordem para avançar. Este devia ter uns três ou quatro quilómetros, tal como o que já à saída de Port Headland me fez esperar na passagem de nível. Lembrei-me dos comboios em Alcântara e da seca que é esperar pela sua passegam. Mas ao pé destes até são bem rápidos…

Um mergulho noutro mundo


















Primeiro não se via quase nada na estrada. Depois a terra começou a ficar cada vez mais vermelha, e o mar cada vez mais verde. E a mim, a crescer-me um desejo de saltar para dentro de água. Por isso marquei um pequeno cruzeiro para fazer “snorkeling” nesta segunda barreira de coral australiana que é o Ningaloo Reef. É mais modesta do que a “Grande”, só tem cerca de 250km de extensão, e também não tem corais tão coloridos pois é basicamente de coral duro. Mas os animais que por aqui andam, é que são o grande atractivo deste lugar, mais um, longe de tudo.
Anunciam os folhetos e os cartazes que, na época certa do ano, se pode nadar com o maior peixe do mundo, o tubarão-baleia. Bichinho para atingir os 18 metros…
Mas esta não era a época do peixão. Podia ser que se vissem jamantas ou dugongos, mas dizia o nosso guia que iríamos ver, com 99.9999999% de certeza tartarugas. Para mim já bastava. E para mais o barco onde íamos parecia que tinha um aquário no chão e os corais estavam mesmo ali à espera de nos ver a todos de óculos, tubo e barbatanas. Além disso, ainda há bocado tinha passado por mim uma aranha que, pelo aspecto, seria bem capaz de matar um tubarão-baleia só com um beijinho, por isso para mim o dia já tinha emoções das fortes.
“Tartaruga a estibordo” gritou o miúdo inglês da Cornualha, que fazia de contra-mestre. E lá andava ela, a espreitar à tona da água, e já agora também, porque não? para respirar. Depois foi para debaixo do nosso aquário para ter os seus quinze minutos de fama, e deixar-se imortalizar pelas objectivas deste vosso amigo, e do resto do pessoal a bordo.
Nos tempos em que não se avistava nada de vulto, o nosso guia, rapaz com 26 anos feitos no dia anterior, e por isso ainda com a mistura de sons e vapores em festa na cabeça, dava uma “cantada” à rapariga suíça que viajava com a mãe, e que mais parecia sua irmã. Foi quando se apercebeu disto que ele parou com os avanços e ofertas de lições de todo-o-terreno.
Duas tartarugas depois foi hora de saltar para a água e tomar conta que aquela linha, entre o O2 e o H2O, é uma porta para outra dimensão: milhares de peixes “esvoaçavam” à minha volta e as “árvores” pareciam cérebros, colmeias e pipocas. Um pouco abaixo de mim passou um peixe maiorzinho que os outros, mais “bicudo”, com umas barbatanas mais ponteagudas, sendo que uma delas parecia uma vela… um tubarão! Eu nadei com um tubarão ! E ele nem me ligou! Não me parece que tenha pensado “eu nadei com um Catarino!” Eu é que fiquei alterado, e até tentei gritar de contentamento, mas a água a entrar pelo tubo tratou logo de me calar.
Já estava contente: uma aranha e um tubarão. Que perigo, que audácia! Lá fui eu dando à barbatana para o barco, mas foi então que uma tartaruga resolveu que se devia vir pavonear para ao pé de mim, e eu sem máquina subaquática! Assim, não vale! Já no barco vim a saber que o tubarão era um (na tradução literal) “tubarão-de-pontas-pretas-do-recife”. Fui o único a vê-lo e fiquei com o orgulho todo inchado.
Aranhas, tubarões e tartarugas, já sou uma espécie de David Catanborough!

No Golfinário



















A razão principal pela qual os turistas vêm à Baía dos Tubarões não é pela branca praia em que “a areia” são milhões de conchas; nem pelos meus amigos estromatólitos (estes até mais famosos e observáveis de cima de uma passadeira, o que torna a coisa francamente mais interessante); nem mesmo pela riqueza da fauna e da flora do Parque Nacional François Peron e pelas suas paisagens de cortar a respiração; também podia ser porque a aldeiazinha de Denham é a “cidade” mais ocidental da Austrália, mas não; enfim, isto tudo junto, e mais algumas especificidades, fazem da Shark Bay um dos locais na Austrália considerados Património da Humanidade pela UNESCO, mas mesmo assim, as hordas de turistas o que querem é ver os golfinhos que vêm ter à praia todas as manhãs em Monkey Mia.

É assim desde os anos 60. Aquilo de repente assemelha-se a número de circo e dá a sensação que Pavlov andou por aqui a tocar campaínhas aos ouvidos sensíveis destes mamíferos…sensíveis.
Com efeito, e embora as sessões de alimentação dos golfinhos sejam restringidas a três, e só pela manhã, eles lá estão fielmente. Não me parece que seja para verem bandos de australianos vermelhos de sol, e asiáticos amarelos de calor. E outros turistas de outros tons, como eu, moreno de falar línguas latinas. Parece-me que eles vêm é por causa do peixinho, que segundo os rangers, “é apenas um terço do que eles necessitam para a sua dieta diária, isso faz com que não criem dependência”, dizem eles.
No final de contas até acaba por ser interessante estar ali com os golfinhos “nariz-de-garrafa”, na tradução à letra do inglês, e vê-los de perto. Mas não se toca!

Fiz-me de novo à estrada, mas antes ainda falei um pouco com o Triff e a mulher, que estão de férias há três meses, e que se estão a preparar para voltar a casa, em Melbourne, a escassos três mil quilómetros dali, numa caravana que parece um autocarro.

Quando cheguei a Carnavon o sol já descia no horizonte mas ainda deu para ir ficando fechado no recinto onde repousam duas antenas históricas: uma, a que apelidam de “O Prato”, foi ali colocada pela NASA em 1966 como um dos pontos de comunicação com as estações orbitais Gemini e Apolo. A outra é a única sobrevivente de nove que estavam espalhadas pelo mundo, e que serviram para perscrutar o espaço no estudo da poeira cósmica, muito útil nas investigações do Big Bang.

Para final de dia experimentei andar pelo “cais com uma milha”, onde até às 4 da tarde circula um pequeno comboio. Seiscentos metros depois achei que o tal comboio é de extrema utilidade quando fiz as contas e concluí que para percorrer o cais até ao final ainda faltava um quilómetro… e ficava a faltar o regresso. Foi o que fiz nesse momento.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Moínhos de pedra












Depois das distâncias me terem frustrado a ideia de ir a New Norcia, uma terra fundada por monges beneditinos espanhóis, e que ainda vive à volta do seu mosteiro improvavelmente erguido no meio do nada, outro toque de “nuestros hermanos” estava para vir quando me dirigi para a aldeia que serve de base para visitar o Parque Nacional de Namburg, mais conhecido por “The Pinnacles”. A dita aldeia contruída nos anos 60, e cujas vivendas têm um aspecto provisório, pois talvez os seus fundadores não acreditassem que sobrevivesse muito tempo longe de centros populacionais maiores (Perth fica a cerca de 200km), tem um nome bem espanhol: Cervantes. Até as suas ruas ostentam nomes de cidades e regiões espanholas, tais como a Rua de Barcelona, a Avenida de Aragão, a Alameda de Sevilha e, mesmo o nosso Tejo (e deles também) tem a sua Tagus Street.

A dois kêi, que é como que diz em inglês australiano quilómetro, fica o lunar e já citado “The Pinnacles”. A alcunha do parque é bastante óbvia já que é mesmo essa a sua atracção maior: milhares de pináculos calcários. Parece que ao longo dos anos, as conchas e as partículas calcárias foram-se depositando no interior das dunas e, a erosão do vento e das chuvas tratou de fazer reaparecer estes lapiás. Corro o risco de estar errado mas acho que isto acaba por ser um campo de lapiás gigantesco. Se se confirmarem as minhas suspeitas, temos um à nossa escala perto de Pêro Pinheiro, meio escondido pela vegetação.

Muito perto deste deserto de pináculos, existe um lago com aquilo que os cientistas têm pelos seres vivos mais antigos do planeta e que têm o belo nome de estromatólitos. Quando se ouve este nome cria-se, com as devidas distâncias, aquela curiosidade que se ganha ao se falar por telefone com uma mulher de voz sensual e lânguida. O pior é que normalmente a presença física vem dissipar as ilusões… é como com os estromatólitos. Os “bichinhos” não passam de umas rochas com aspecto mucoso e, se não fosse o cartaz a explicar que talvez tenham sido eles a criar a atmosfera de oxigénio que respiramos, não tinha voltado com mais respeito por eles do que pelo pato que fugiu da objectiva. Ainda por cima vivem perto de umas belas praias!

Antes que me tranforme num Dom Quixote a investir contra estromatólitos e pináculos vou mas é dormir porque amanhã centenas de “kêi” aguardam a minha presença fugidia.

Terça-feira, Agosto 08, 2006

E vão mil!

Como neste último dia não houve grandes novidades, foi basicamente conduzir, conduzir, deivo-vos aqui um link para visitarem, cliquem aqui. Os utilizadores de Mac suponho que não terão problemas, os de PC, se tiverem dificuldades instalem o Quicktime. Podem ir buscá-lo clicando aqui

Um dia de chuva (e vento).
















Já cá faltava um diazinho destes. Bom, por aqui ainda é Inverno, por isso talvez não seja de estranhar. Esta coisa dos estereótipos: Austrália é calor, deserto, Ayers Rock, Sydney, barreira de coral, calções, enfim, Verão eterno. Pois garante-vos este vosso amigo que não é bem assim. Já vos mostrei florestas do mais verde que há e agora mostro-vos céus cinzentos. Ontem à noite adormeci no intervalo de uma carga de água e da seguinte, entre uma rajada de vento e outra. Parecia que iria acordar no camarote de um barco à vela em vez de numa caravana. Apesar de não ter acordado a boiar, a vontade de me “pôr ao fresco” era pouca ao vêr aquilo a que Fernando Pessoa acho que se referia ao apelidar de “chuva oblíqua”. Tocada a vento, portanto. Mas lá teve de ser porque havia àgua a caír de outras formas que eu queria ver: as “Beddelup Falls”. Estas quedas de àgua estão no final de uma estrada de terra com cerca de 2km e que se fazem muito fácilmente. Logo no início do caminho uma placa sugere que se sintonize o rádio em 100,0 Mhz e que se oiçam dados turísticos e ecológicos deste lugar. Que excelente ideia! Ouvi um biólogo a falar das plantas e animais e outro tipo a ser entrevistado sobre os atractivos do Parque Natural nas várias estações do ano. Ponham os ouvidos nisto caros ambientalistas e directores dos parques portugueses.
Bom, lá fui eu de seguida para um dos lugares mais famosos do sudoeste australiano e que dá pelo nome de Margaret River. O “river” em si não é mais do que um ribeiro, mas pode ser que se chame assim por causa de outro líquido: vinho. Para uma área com uns 150km de comprimento, a quantidade de produtores a anunciar visitas e provas é impressionante. E dizem os guias que é a zona do país mais relacionada com vinho de qualidade elevada. Passei pela associação de produtores e comprei duas garrafas do tintol. Vamos ver como se comportará ele neste palato tão bem acostumado à produção das nossa regiões demarcadas…
Como o dia não estava para grandes brincadeiras comecei a pensar em arranjar um parque de caravanas onde pernoitar, e fui então percorrendo a “Caves Road” em busca de um. Aproveitei e como estava perto fui ainda à “Fábrica de Chocolate de Margaret River” e a princípio fiquei sem saber o que comprar tal era a variedade da oferta. Escolhi duas variedades de chocolate preto, o meu favorito, uma com gengibre e outra com nougat. Talvez como castigo pelo pecado da gula, o vento começou a ser cada vez mais intenso, tanto que as árvores deixavam caír folhas, ramos, e até elas próprias caíam sobre a estrada. Num ponto uma impedia completamente a circulação e, um funcionário de uma das caves de vinho telefonava a todos os amigos com carro capaz de desimpedir o caminho, enquanto a turista japonesa se divertia a ser fotografada e me dizia: “que giro, tivémos a mesma ideia”.
Peguei no mapa e fui dar a volta por outro caminho (ver a mensagem acima “E vão mil”) até chegar a uma das Mecas do surf por estas bandas, uma terrinha chamada Yallingup, no meio do Parque Nacional Leuwiin-Naturaliste, senhor de uma costa bravia, e, claro está, de uma ventania que quase me fazia levantar vôo ao fotografar o pôr-do-sol. Vamos ver se amanhã é dia da consequente bonança.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

“In the valley”

























Desculpem-me, eu sei, foram fotos a mais, mas é que o “Vale dos Gigantes” é um local extraordinário. Andar ao nível de árvores com dezenas de metros de altura não é coisa que aconteça todos os dias. E digo “ao nível” tanto no chão como lá em cima: o Tree Top Walk é uma passadeira metálica com seiscentos metros de extensão, que vai subindo subindo, até estarmos junto à copa das gigantes árvores tingle e karri. Reparem nos pontinhos nas fotos: são as pessoas. A certa altura (palavra apropriada) do percurso estamos a quarenta metros do solo e, em vez de nos admirarmos ao olhar para cima, extasiamo-nos a olhar para baixo. Os que têm vertigens não costumam apreciar muito, como percebi do comentário de uma miúda para o seu irmão, enquanto falavam do pai: “ninguém lhe disse para vir”.

Como tudo o que sobe acaba por descer, também o visitante está ao abrigo das leis da física, e acaba por vir calmamente parar a outro percurso maravilhoso: o Ancient Empire Walk. Aqui caminha-se noutra passadeira, desta vez de madeira e ao nível do chão. Logo de início fiquei com a sensação de que a qualquer momento iria ser espezinhado pela pata de um dinossauro. Havia semelhanças evidentes na forma de algumas árvores, e o ambiente “pré-histórico” ajudava. Acho que esta parte do Vale dos Gigantes é tão fascinante como andar lá em cima porque aqui está-se à distância de esticar o braço e de compreender que seria precisa muita gente de mãos dadas para envolver um destes troncos de tingle, e que estas torres com folhas já cá andam há muuiiiitos anos. Algumas estão furadas por raios ou incêndios e fazem as vezes de caverna, abrigo de madeira ou túnel. Também podem ser úteis como toca, para nós, pequenos ratos, nos escondermos dos dinossauros.

A centena e meia de quilómetros de estrada que me levou a Pemberton, onde estou a escrever e vou passar a noite, é uma alameda permanente ladeada de bosque. Aqui imperam as karri, tidas como a terceira espécie de árvore mais alta do mundo e que até são usadas para montar postos de vigia na floresta. Essas são escaláveis para os corajosos, e aqui na zona existem algumas com quase cem metros…
Na estrada havia indicações para outros percursos, como o da “Estrada das Grandes Árvores” e o “Caminho das Árvores Altas”. Pergunto se aquela por onde vim terá algum nome em especial. Se não tem, e como parei a caravana na berma e o veículo tem três metros de altura , baptizo-a agora como a “Estrada É Só Fazer as Contas”.

Domingo, Agosto 06, 2006

O meu íbis





AO MESMO TEMPO QUE COLOQUEI ESTE TEXTO ONLINE ACRESCENTEI OUTROS TRÊS MAIS ANTIGOS E QUE VÊM MAIS ABAIXO. HÁ SÍTIOS EM QUE NÃO É FÁCIL ENCONTRAR UM PARQUE PARA A CARAVANA E INTERNET A HORAS PRÓPRIAS…

Hoje acordei aqui. O meu hotel com rodas tinha-me trazido ontem à noite para este parque à beira-braço-de-mar. Parece um lago mas não é. É uma reentrância de mar chamada Wilson Inlet. Imaginemos uma península mas ao contrário, um pedaço de mar rodeado de terra por todos os lados, menos por um. E esse "menos um" é muito estreito, coisa para 1 km. Abundam as aves: garças, cisnes negros, pelicanos e íbis. O da foto. Agora vou ali ver se subo ao topo de umas árvores com quase cem metros. Até já.

Baleia à vista!










Confesso que é uma emoção enorme para mim estar com o maior ser vivo à face da Terra ali à frente. Já acontecera nos Açores no ano passado mas na altura fiquei com uma certa frustração por nunca estarmos perto e por os barcos fazerem muito barulho. Desta vez fui num catamaran que, de vez em quando desligava o discreto motor, e velejava. Pareceu tudo tão fácil. Não sei se foi só por isto ou se foi o à-vontade do comandante que desde o início pôs toda a gente bem disposta. Mesmo os que tinham receio de enjoar: o segredo, segundo o John, é ir mexendo os pés alternadamente “tipo” fila de espera no banco.
Para além das brincadeiras mais ou menos escatológicas sobre os destinos do “pooh” animal, o John prendeu a atenção das crianças e dos adultos com as suas histórias e conhecimentos científicos. Principalmente das crianças que o rodeavam e exclamavam “ahhs” e “ohhs” como se lhes estivesse a contar contos de fadas e dragões. Quando me aproximei dele e me perguntou se estava a gostar respondi-lhe que estava a gostar bastante, e que não era só pelas baleias mas também pela forma extraordinária com que ele enriquecia a viagem. Agradeceu envergonhado, mas se corou não se notaria naquela cara vermelha e, acrescentou que bem podia aprender tudo o que há para aprender sobre baleias que, se lhe faltasse o jeito com que se nasce para certas coisas, não lhe serviria de muito.

Vimos umas oito baleias durante a tarde e mais alguns golfinhos. Vimos também focas numa ilha. E passámos por uma daquelas praias… Ao passarmos por Goode Beach o John disse-nos que na época do Verão, uma multidão naquela praia equivale a umas sete pessoas.
Chegámos todos satisfeitos e, quando me preparava para pegar na caravana vi umas miúdas com os cavalos dentro da àgua.
Já a caminho de Denmark (que é onde vou dormir hoje) o céu parecia uma pintura.

Já viste alguma baleia hoje?









Albany aproxima-se muito do meu ideal de lugar para viver a reforma: tem imensos alpendres para adormecer enquanto divido o olhar entre o mar e um livro, praias perto (e que praias, mas isso fica para depois), montes cheios de trilhos (nessa altura duvido que a bengala me ajude muito), um clima Mediterrânico (mesmo que o único mar aqui seja o Oceano Austral) e quarentonas giras. Como qualquer australiano do oeste, meter conversa não é problema e acho que só em Perth é que deve haver “conversa de elevador”, pois é o único sítio onde os edifícios têm altura para luxos desses. Emily meteu conversa comigo na rua e perguntou-me logo de onde era, se estava cá há muito tempo… enfim, o costume. Deu-me todas as dicas para ver as baleias e ainda me falou das enormes àrvores da zona. Disse-me que também faz fotografia e que tem uma filha a viver na Nova Zelândia. Entretanto apareceu a outra filha à qual perguntou “já viste alguma baleia hoje?”, assim como quem pergunta se o carteiro já apareceu. Eu fi-la reparar nisso e ela respondeu-me que é normalíssimo nesta época do ano ir-se à praia ou a uma falésia, e ali a dezenas de metros andarem os maiores mamíferos da Terra. Eu ainda não tinha visto nenhuma baleia, mas uma quarentona giraça já avistei hoje.

Contar carneiros





Um carneiro, dois carneiros, vinte carneiros, mil carneiros, um milhão de carneiros! Kojonup tem como lema “o primeiro shire a ter um milhão de carneiros”. Há terras no caminho para Albany que têm outros lemas mais óbvios, como “a porta de entrada para os Montes Sterling” no shire de Cranbrook. Mas Kojonup faz questão de mostrar que domina a questão dos carneiros. E não é para menos: quando se chega a esta parte da estrada para Albany, para além do manto verde o que se nota na paisagem são pontos brancos lanudos. Ok, e eucaliptos retorcidos.

Shire faz-me logo lembrar “O Senhor dos Anéis”, e acho que esta palavra inglesa deve servir para descrever um lugar verdejante, com prados a perder de vista, charnecas, e onde o gado adora pastar. Se não fôr esta a descrição, devia ser. Já tive esta sensação na Nova Zelândia, e agora “aqui ao lado” parece-me que vou ver o Frodo Baggins & Cia a pulular por entre as ovelhinhas.

Já agora apresento-vos a minha furgonette, que é uma espécie de kitchnette com rodas. Vai ser a minha casa nas próximas semanas e é onde espero não contar muitos carneiros ao adormecer.

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

Um anjo chamado Rickie Lee






A mae mandava-a parar quieta mas a miuda continuava a balancar-se nos apoios da carruagem. O comboio seguia para Freemantle, o antigo porto de Perth e que fica a uns 20km em direccao ao mar, claro. Freemantle tem em quantidade o que Perth ja so tem a menos e que sao edificios historicos. O centro historico tem as ruas ladeadas de coloridos predios vitorianos, com varandas, colunas e muitos dizeres no alto das fachadas. Tambem tem uma cervejaria que produz a sua propria cerveja e que se chama "Little Creatures" e no menu avisa-nos que se nao soubermos qual das cervejas escolher so temos de pedir ajuda a uma criatura.

Freemantle tem muitos barcos. Iates, cargueiros, catamarans, ha de tudo. E tem um museu maritimo num edificio que parece uma obra do Norman Foster. Ca fora existe um memorial em homenagem aos milhares de criancas que emigraram para a Australia em busca de melhores vidas para si e para as suas familias. Uns vieram trabalhar em fabricas, outros vieram cortar arvores, outros ainda, trabalhar no proprio porto.

No comboio tirei uma foto a miuda que tinha ar de diabrete. Mostrei-lhe a foto e ela riu-se. Mostrei-a a mae que quis saber se eu estava a fotografar so por diversao, e eu disse-lhe que estava de ferias mas que era fotografo. Ela perguntou-me por onde iria viajar e eu respondi que amanha vou para Albany ver as baleias. "A Rickie Lee nasceu em Albany, e mais tres dos meus filhos tambem" depois mostrou-me uma foto da filha vestida de anjo.
"E usas as asas para te agarrares no comboio?" - perguntei a cachopa. Ela riu-se muito e quando ja saiamos do comboi