Segunda-feira, Agosto 21, 2006

The (Top) End





















Desta vez cheguei a Darwin ao pôr-do-sol. Por um lado é bom chegar a esta hora a uma cidade onde se espera descansar, relaxa-se logo. Por outro, para quem andou atravessando vários “meios-do-nada”, o bulício de uma cidade jovem pode ser revigorante. Como a virtude costuma estar no meio, escolhi doses moderadas de descanso e movimento.
Das duas outras vezes que aqui tinha estado não tive tempo de conhecer muito da capital do Território do Norte, ao que eles chamam carinhosamente o “Top End” (na realidade, esta é a primeira vez que venho a Darwin sem ir para Timor), assim comecei por ficar no Top End Hotel onde “aterrei” da primeira vez, e no seu restaurante-jardim tropical onde esperava comer cangurú e crocodilo. Sete anos depois a ementa tinha umas coisas semi-asiáticas e uns bifes bezuntados de molho. E o hotel está igualzinho, com portas velhas e frágeis e quartos com o mesmo perfume anos 70. O pequeno-almoço foi uma desilusão porque a variedade de frutas tropicais desapareceu da mesa por completo com os anos. Enfim, há alguns lugares em que é difícil ser-se feliz duas vezes.
Uma caminhada para o estômago se esquecer do bife, e lá fui eu inspeccionar a Mitchell Street, que também é a rua onde fica o hotel. Aqui sim, há mudanças: agora a “movida” de Darwin parece ter-se movido para os numerosos bares e restaurantes que atraem tanto turistas como os locais, os “territorians”. O “deitar cedo” depois de conduzir, e o “cedo erguer” dos dias passados agarrara-se ao organismo, por isso a noite de sábado acabou comigo esticado na cama “king-size”. Dormi como um rei.

A ressaca de cidade teve o seu reflexo no consumismo de domingo, que aproveitei para dedicar à compra dos “recuerdos” da praxe e para me aperaltar em traje domingueiro tropical com vista a ir ao Mercado da Praia de Mindill. Finalmente pude comer bem! A quantidade de tasquinhas japonesas, indonésias, gregas, italianas e até timorenses (pena não haver portuguesas, mas o bacalhau nos mares da Noruega não perde pela demora e já deve estar a tremer, não de frio, mas só de pensar que vou regressar e por isso os pescadores vão ter de exceder as quotas) dizia eu, a quantidade deve ser proporcional à gula que toda a gente para ali leva. E não basta a fome do corpo ainda se sacia a fome de espírito com músicos de rua, teatro de marionetas e números circences. Um belo final de domingo com direito a mais um pôr-do-sol.

Ainda lembrado do livro “Na terra dos cangurús” de Bill Bryson, achei por bem dedicar a manhã do último dia na “terra dos cangurús atropelados” para a cultura e a ciência e fui ao Museu e Galeria de Arte do Território do Norte, onde depois de um chá gelado caseiro, com vista para o mar, me adentrei por entre quadros, utensílios, mapas, e tudo o que se pode imaginar sobre etnologia e arte ligadas aos donos de Darwin, que são os aborígenes, pois seguindo a lei de que já vos falei atrás, novamente se mexeram e reclamaram as terras de Darwin e sua península. Estão à espera da decisão final.
Mas eu vim a este museu por dois motivos em especial: as terríveis alforrecas e o Ciclone Tracy. E ainda tive um bónus que desconhecia e que é o “Sweethart” um crocodilo embalsamado, com uns cinco metros que parece ainda ter fome, mesmo empalhado. Para além dos incontáveis insectos, aranhas, répteis, peixes, ossos de animais pré-históricos, e devidas explicações, ali estavam elas, as alforrecas a que eles chamam “box jellyfish”, dentro de umas vitrines, cautelosamente mortas, e provavelmente no Inferno pois têm a fama de animal mais venenoso do mundo. Por estas e pelos “crocs”, é que o pessoal do norte da Austrália não vai muito a banhos de mar…
A última secção do museu é dedicada ao ciclone que destruíu Darwin pela segunda vez, e que conseguiu causar muito mais danos do que os esquadrões de bombardeiros japoneses na II Guerra Mundial. As fotos da exposição e os filmes projectados têm demasiadas semelhanças com as que todos vimos do furacão Katherine. O Tracy varreu Darwin do mapa na noite de Natal de 1974 e, como bem diz Bill Bryson no seu livro, o pequeno cubículo escuro é a parte mais intensa da exposição. Antes de abrir a porta reparei no pequeno aviso colocado à entrada e que avisa os visitantes de que aquela sala pode causar angústia, em especial a quem viveu essa noite de pavôr. Digo-vos eu que estava bem longe nesse Natal, que os sons gravados por um padre nessa noite são mesmo angustiantes. O silvo contínuo do vento, como se fosse um motor gigantesco que parece estar perto mas não se aproxima, telhados e janelas a bater, o estilhaçar de vidros, coisas pesadas a caírem. O som parece mais terrível do que as imagens e não admira que os dois miúdos que entraram comigo não se tenham demorado muito na sala não fosse aquele ser o barulho do Papão.

O que faltava do dia passei-o a “flanar” pelo porto e pela zona do parlamento onde conheci o Timothy e a Doreen nos jardins, dois “homeless” que estão juntos há dezoito meses (parece que nesta viagem os “homeless” simpatizaram comigo, e uso a expressão em inglês porque o mato lhes dá o abrigo, tal como ao Abdul). Como me explicou o barbudo desdentado, a sua mulher aborígene também tem sangue árabe pois é descendente de afegãos que vieram no século XVIII para a Austrália como tratadores dos dromedários usados nas caravanas que faziam o comércio igualmente por estes desertos.

Esta mistura de povos, da qual até os portugueses fazem parte, torna a Austrália um país ainda mais rico, com tradições que se cruzam e, embora só recentemente os Aborígenes comecem a ter os seus direitos reconhecidos, a tolerância parece ser palavra de ordem. E a boa vontade. Como diz o Tom Zé, “sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser vai dar para mudar o final”.

Acabo esta parte da minha viagem de sonho pela Austrália com o objectivo principal cumprido, e que agora revelo: viajar dentro de mim. O único formigueiro agora, não está em nenhuma foto, sinto-o à medida que o regresso se aproxima e as saudades que tenho de vocês já não se apaziguam com a escrita.

Até já.

Aqui fica também o filme final da viagem.


Domingo, Agosto 20, 2006

O bom humor também é sagrado





















Os guias australianos devem ter uma cadeira de humor nos cursos. Repetidas vezes lançaram aquela boca que fica no ar, inesperada, e que lança toda a gente numa gargalhada cavalgante. No desfiladeiro de Katherine o guia/barqueiro debitava o discurso sobre as várias secções do desfiladeiro, os animais, as pinturas aborígenes, e no meio ia pontilhando (isto já sou eu condicionado pelas pinturas pontilhadas dos aborígenes) com piadas. Estudadas. Daquelas que deve guardar em cartuchos para a altura certa.
No pequeno cartaz enterrado na duna na margem do rio Katherine dizia: “No enter” e o “Cenoura” (acho que era Rudolph o nome dele, mas como não me lembro bem…) perguntava aos participantes se sabiam para que era aquele sinal. “É por causa dos crocodilos. No Território do Norte temos crocodilos extremamente inteligentes, e que até sabem lêr! Se acreditarem nisto acreditam em tudo… Just kiddin’ e depois lá explicava que era a época dos “crocs” porem ovos, e que o calor das dunas os chocava. Mais à frente nova questão: “sabem porque é que aquele colete de salvação está ali?” mais ou menos a cinco metros acima da água, pendurado na falésia lá estava ele “um dia tive um cliente muito chato… Just kiddin” as últimas cheias foram tão intensas e o nível do rio subiu tanto que o colete se soltou do armazém e ficou ali, até hoje.

No Parque Nacional Kakadu (mais um Património da Humanidade) o guia do cruzeiro também as tinha todas engatilhadas. O cruzeiro do Yellow River é, talvez, a maior atracção do Parque pois navega-se por entre crododilos e inúmeras espécies de aves que para aqui vêm na época seca. São aos milhões os gansos, os quais chegam a representar em dada altura do ano, 60% da população mundial. É muito ganso.
Por todo o Território do Norte não é muito seguro dar-se umas braçadas fora de uma piscina porque por aqui habita o crocodilo de água salgada, que não é muito dado a brincadeiras. E quando anda na brincadeira é menino para arrancar uma pata a um seu congénere. “Por isso é que o Tripé tem o nome que tem” dizia o guia enquanto manobrava a balsa.

O Kakadu é um lugar mágico. Para além de todo o valor natural que tem, sendo uma grande zona onde as águas dos dilúvios que por aqui caem servem de abrigo e de fonte de alimento a milhentas espécies de asas, de patas, de dentes, de focinhos, de pêlos e de folhas, o Kakadu é também um lugar simbólico ao longo dos tempos, desde o “Tempo dos Sonhos” para os Aborígenes. Existem por todo o parque lugares sagrados para eles, onde nós, comuns caucasóides, não podemos entrar. Mas em alguns podemos, como na Rocha de Nourlangie, e na de Ubirr. Este último lugar foi o que mais mexeu comigo ao subir o enorme penedo que serve de miradouro sobre as planícies alagadas. À medida que subia parecia que caminhava para a proa de um navio até que era só eu e o verde até ao fim do horizonte, e atrás, as colunas de fumo das queimadas contribuíam para a minha pequenez. “O mundo é grandioso” devo ter pensado.

O Aborípcio



Quando parei para lhe dar boleia pareceu-me um aborígene. Ia finalmente poder contactar de perto com este povo, que até constitui uma das quatro raças da Humanidade. Até agora só vira provas do seu genialismo na pintura e outras artes e em tudo o que é “souvenir” da Austrália. E também os vira nas ruas das terras mais a norte, onde caminham perdidos, alienados, quase sempre alcoolizados. Para estar de perto com eles é preciso ir às fechadas comunidades onde vivem, onde é necessário obter autorização, quase um visto para entrar nos vários países dentro deste país.
Desde os anos setenta, quando saíu uma lei que permite a cada uma das várias tribos aborígenes reclamar a terra dos seus ancestrais, provando uma associação contínua como povo, com as suas tradições ligadas sempre à terra (e mesmo à Terra), na língua, etc, que já são vários os pedaços de terra “independentes”. O maior de todos, a Arnhemland, no Território do Norte.

Mas Abdul não é nome de aborígene. A personagem a quem acabara de dar boleia é egípcio. Na história que me contou durante os quatrocentos e tal quilómetros de boleia até Katherine, existe um rapaz de vinte e cinco anos, nascido em Luxor, e que se apaixonou por uma miúda australiana. Convidou-a para viver com ele no Egipto. Tentaram mas ela não se adaptou. E depois ela mandou-lhe um bilhete de avião para a Austrália e ele foi. Há catorze anos.
O juízo que ele faz das mulheres não é dos melhores: “O livro de Alá diz que a mulher deve sempre seguir o homem”. “As mulheres têm um cérebro assim”-acrescenta deixando um minúsculo espaço entre o polegar e o indicador.
Diz que já teve muitas mulheres – e novamente baseia-se no Corão para justificar que pode ter quatro, mas que é a sua fraqueza, o seu maior pecado – e que as brancas australianas são umas parvalhonas. Só pensam em ter carros e casas. Ele que nem tem casa! Isto é, a sua casa é o mato, com telhado de estrelas. Dorme no mato e não tem medo de cobras, lagartos, aranhas, insectos. Nunca lhe fizeram mal e já deu duas voltas à Austrália, por isso…
De vez em quando também gosta de dormir numa cama a sério. Numa cidade. Diz que tem uma namorada aborígene em Melbourne e que ela é extraordinária na cama, “como quase todas as pretas”, como lhes chama. De vez em quando vai para casa dela mas mais de um mês começa-lhe a fazer confusão. A preta e as cidades. Por isso mal pode pira-se. Brinquei com ele, e o iPod tocou “Black Magic Woman” dos Fleetwood Mac. Ele riu-se muito, um riso envergonhado mas quase até às lágrimas.
É um nómada, quando começa a fazer frio no sul começa a mover-se para norte: antes de começar a época de chuvas no Norte aponta para o calor do sul. Diz que só ele é que percebe os aborígenes. Que vive com eles como se fosse um. Só tem pena de não saber alimentar-se no mato como eles fazem quando precisam. Por isso, vai comprando as pernas de frango fritas e as coca-colas nos supermercados ou nas “roadhouses”.
Diz muito mal dos brancos australianos. “São a pior espécie de todas porque vêm dos ingleses. Que morra a Raínha, ela é que tem a culpa!” mas no meio disto diz que recebe um subsídio. Uma espécie de fundo de desemprego de duas em duas semanas, Meto-me com ele: “não gostas do sistema mas vives à custa dele?” Ele finge que não ouve, volta a dizer que só ele é que percebe os “pretos”.
Houve momentos em que adormecia, depois dizia que andar de carro lhe dava sono. Quando teve uma moto conseguiu andar bastante pela Austrália, a sentir o vento na cara. Depois caíu, partiu uma perna, e agora caminha menos e pede boleia. Já chegou a ficar sete dias no mesmo local à espera de quem o levasse.
Quando percebeu como funcionava o iPod, que aquele aparelho acoplado (o iTrip) emitia as músicas para o rádio do carro só foi capaz de dizer a sorrir “ando metido no mato há muito tempo”.
E nisto chegámos a Katherine, pediu para o deixar junto ao rio e como ainda havia sol aproveitava para tomar banho (ah, detestava mulheres que não tomavam banho e não escovavam os dentes!).
Dei-lhe o meu saco-cama, que iria ficar de qualquer da formas na Austrália, e que funcionava assim e assado. Que não queria, era demais para ele, que o desse ao preto que estava lá atrás. “Dá-lho tu” disse-lhe eu. E de novo fez um grande sorriso e deu-me um grande abraço. Pelo retrovisor vi-o caminhar para a margem do rio com o saco-cama, a sua sacola com roupa e o cobertor, e o saco de plástico com comida do supermercado.

O novo filme correspondente aos 6000km também já está disponível aqui. Agradeço ao meu amigo 5tranger o enorme favor que me fez em disponibilizar os outros filmes em formato que os PCs conseguem mostrar. Ainda assim, pelas dicas que ele me deu, continuo sem saber que é este stranger tão benemérito. Se queres continuar incógnito, qual Clark Kent, manda-me um email que não revelo o teu disfarce de super-homem. Aos restantes amigos que não conseguiram ver os filmes, vejam os comentários ao post "Purnululu: Uma das maravilhas do mundo" onde este amigo stranger colocou os links para os filmes em formato Windows.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Purnululu: uma das Maravilhas do Mundo












Já está. Já cometi o meu acto de luxo. Este era um dos pontos mais altos desta viagem, mesmo literalmente. Fiz uma viagem de helicóptero por cima do Parque Nacional Purnululu (ou Bungle Bungle) e confirmaram-se as minhas suspeitas: é um dos locais mais extraordinários do nosso planeta.
Segundo o Michael, piloto do helicóptero que teve um instrutor português, a cordilheira Bungle Bungle não era conhecida dos brancos até meados do séc. XIX, quando um explorador irlandês as descobriu. Como lhe era difícil pronunciar Purnululu, que na língua das tribos de aborígenes da zona quer dizer “pedra de areia”, chamou-lhes Bungle Bungle, uma corruptela do nome de uma erva comum chamada “bundle”. Mesmo assim, só nos anos cinquenta do século passado é que este lugar inimaginável se tornou uma atracção turística, tudo por causa de uma equipa de filmagens alemã que sobrevoava o local e que espalhou a boa nova ao mundo.
Sobrevoar estas formações rochosas que o tempo tem vindo a moldar é uma experiência transcendente. Observar de cima os profundos desfiladeiros, os rios secos que na época “molhada” extravasam os seus leitos e levam tudo à frente, os precipícios abruptos, os montes que se erguem inusitadamente da planície e, acima de tudo, a área que denominam de “colmeias”, o símbolo mais notório do parque.
Só pela paisagem de beleza extrema, não admirava que o Parque fosse considerado Património da Humanidade, mas também o de “nele estarem representados, através de fenómenos naturais da maior importância, fases da História da Terra, com registos da Vida, e processos contínuos no desenvolvimento das formas geológicas do planeta.”

Se o tempo não fosse areia a esgotar-se numa ampulheta, teria ido fazer uma caminhada pelos desfiladeiros onde sobram das chuvas piscinas naturais, e onde crescem palmeiras à sombra das paredes de cem metros; onde há pinturas rupestres feitas pelos aborígenes que habitam esta parte da Austrália há mais de vinte mil anos; onde também se nota melhor o fenómeno das riscas na rocha, causadas por algas e oxidação. Mas para lá ir é preciso fazer uma das piores picadas deste continente-país, e a areia a correr na ampulheta não pára só para eu lá ir. Fica para a próxima. Para já voei, por cima de uma das maravilhas do nosso mundo, e por cima do meu imaginário.

Já agora podem ver o filmito correspondente ao local dos 5000km de viagem. Aqui.